Transcestralidade em foco no carnaval do Tuiuti
Escola de samba traz à tona a história de resistência de Xica Manicongo
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A escola de samba Paraíso do Tuiuti irá homenagear Xica Manicongo, considerada a primeira travesti do Brasil, no desfile de terça-feira, 4 de fevereiro. Sob o enredo do carnavalesco Jack Vasconcelos, a escola contará a trajetória de Xica, desde sua escravização no Congo até sua luta por identidade e religiosidade em Salvador, Bahia.
A Tuiuti, conhecida por seus enredos questionadores, espera usar a visibilidade do desfile para combater o preconceito contra pessoas trans. Vasconcelos destaca a importância de mostrar "o ser humano por trás da personagem", enfatizando a transcestralidade e a relevância histórica das pessoas trans.
Xica Manicongo foi trazida ao Brasil como escravizada, forçada a se vestir com roupas masculinas e reprimida por suas crenças religiosas. Sua resistência resultou em perseguição pela Santa Inquisição, onde foi acusada de sodomia e bruxaria. Dividida entre duas vidas, Xica se vestia como Francisco durante o dia, mas à noite vivia como Xica.
O enredo baseia-se na pesquisa de Luiz Mott, antropólogo e ativista LGBTI, que revisitou a história de Francisco/Xica Manicongo. Vasconcelos também utilizou textos de professores trans para compor a narrativa, ressaltando a importância da luta por visibilidade e respeito na comunidade trans.
Para aprofundar a pesquisa, Jack conheceu os conceitos da quimbanda, uma prática religiosa afro-brasileira de origem bantu. Xica praticava quimbanda na África e trouxe essas práticas para o Brasil. Vasconcelos revelou que, durante sua pesquisa, começou a receber uma tentativa de comunicação espiritual de Xica Manicongo, preenchendo lacunas que a pesquisa tradicional não cobria.
Xicas na Avenida
A deputada Érika Hilton (PSOL-SP) e a rainha de bateria Mayara Lima participaram da festa de lançamento do samba-enredo do Tuiuti para o Carnaval 2025. Jack Vasconcelos quis que a figura central do enredo fosse apresentada no desfile em diversas representações. Quatro mulheres trans e travestis personificarão Xica Manicongo: Daniela Raio Black na comissão de frente, a cantora Hud no Reino do Congo, a cantora trans Pepita no carro de Salvador, e Bruna Maia em uma ala coreografada sobre a Inquisição em Salvador.
Hud Burk, cantora trans, foi convidada para representar Xica Manicongo após participar do primeiro ensaio de rua da escola. Hud destacou a importância histórica de sua participação, especialmente no contexto dos 40 anos de carnaval no Sambódromo. Ela expressou sua identificação com a Tuiuti e a importância de Xica Manicongo como representante de uma escola de samba de grande visibilidade.
Hud também ressaltou a necessidade de continuar a luta contra o preconceito, lembrando que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e consome pornografia de mulheres trans e travestis. "Pedimos amor, paz, respeito, igualdade, mais vida. Queremos viver, queremos estar vivas e estaremos, assim seja", afirmou.
Entrevista com Jack Vasconcelos
"O tema fala direto ao ser humano e traz uma oportunidade de falar sobre transcestralidade. Queremos mostrar uma figura histórica importante para a comunidade LGBT e para a luta por direitos e respeito", explicou Vasconcelos. "A visibilidade no desfile é uma questão de respeito ao que cada pessoa quer ser."
Pesquisa
O enredo foi inspirado na pesquisa de Luiz Mott, que revelou a história de Xica Manicongo, um membro do grupo Jimbanda. Vasconcelos também incorporou material acadêmico de professores trans, destacando a contribuição histórica e a luta contra o preconceito dentro e fora da comunidade.
Esta homenagem a Xica Manicongo promete ser um destaque no Carnaval, celebrando a diversidade e a luta por direitos humanos.